primeiros sentidos...
Vale da Amoreira.......Fim da manhã...... hora de muito calor.
A escola mais conhecida pela “escola do mato” está situada na extremidade do Vale com uma área circundante bem aberta e com zonas verdes selvagens.
É curioso o nome popular “escola do mato”, quando a palavra mato, em crioulo da Guiné-Bissau significa zona de floresta. Também existe uma relação entre “escola de mato” e a luta de libertação nacional na Guiné. As “escolas de mato, eram as escolas que funcionavam, durante o colonialismo, nas zonas libertadas do PAIGC. Eram escolas que muitas vezes funcionavam debaixo das árvores e com uma rápida mobilidade em caso de ataque do colonialismo. A transferência desta palavra para o Vale da Amoreira é bastante interessante e curiosa.....
Bem perto da escola há um complexo urbanístico para a comunidade cigana. Casas térreas, com quintais e bastante aberto. Ainda assim a comunidade tem um campo largo atrás das casas onde podem estar. Também existem algumas barracas..... provavelmente de ciganos que não conseguiram o realojamento.
Portanto a comunidade mais próxima da escola é de facto a comunidade cigana.
O Centro Comercial zona F, é um dos corações de actividade comercial e social do bairro. Tem lojas, cafés e restaurantes e à entrada algumas ciganas vendendo.
Como é normal neste tipo de lugares a conversa pode fluir rapidamente e com muito sentido de humor. Assim, conversámos com algumas pessoas no café: o dono, os clientes e ainda o guarda nocturno da escola do mato. A conversa foi andando desde o futebol até às “manias das mulheres modernas”. Segundo o guarda nocturno (com ar de troça) foi dizendo que agora as mulheres vêm a telenovela e os homens lavam a louça...... e também foi falando da escola ..... dizendo que não havia problemas com a segurança à noite, mas claro que ele tinha medo. E assim fomos caminhando na conversa e tecendo várias cumplicidades futebolísticas e de género........
À porta da entrada conversámos com as mulheres ciganas que ficaram preocupadas quando tirámos fotografias..... medo de que fossemos da Câmara...... talvez problemas sobre o rendimento mínimo já que elas elas estavam a ter uma actividade comercial.... não sei.
Mas conversamos e criando as cumplicidades próprias entre mulheres lá acederam às fotografias com o compromisso de também lhes darmos uma cópia..... e estavam felizes.
Caminhando pelo bairro fomos descobrindo as formas sinuosas entre os prédios onde os jovens se encontram ao fim da manhã ou ao fim do dia.
Alguns dos prédios estão muito degradados e sujos o que dá uma imagem do bairro muito negativa, principalmente para os que lá vivem como para quem lá entra.
São bairros sociais cuja construção nunca preocupação de um bom lugar para viver! Os prédios são caixotes, sem varandas e onde não há espaços verdes para ambiente social. O bairro tem muitos espaços abertos mal aproveitados. Assim, os jovens apenas ficam com os centros comerciais, e os cantos sinuosos para os seus encontros sociais.
Questiono-me:
1 – Estando a escola do mato tão perto de uma comunidade cigana, qual é a ligação da escola a essa comunidade e vice-versa?
2 – Quantas crianças e jovens ciganos frequentam a escola, ou as actividades da escola?
Vamos continuando com estas percepções e reflexões......
